O Estranho Que Nós Amamos ★★★★

O novo filme da diretora Sofia Coppola, O Estranho que Nós Amamos, chega aos cinemas nesta quinta-feira após ser muito bem recebido no 70° Festival de Cannes. O júri do festival deu para a cineasta o prêmio de Melhor Direção pelo longa que conta a história de seis mulheres que moram isoladas em um internato no estado da Virgínia, nos Estados Unidos, durante a Guerra Civil. Mulheres que encontram no casarão um refúgio da guerra, já que suas famílias passam por dificuldades financeiras. Em um belo dia, o soldado John McBurney (Colin Farrell) é resgatado pelo grupo após ser gravemente ferido durante um dos combates. A parti daí, tensões e paixões despertam naquela casa que aparentemente, não tinha nenhum sinal de vida.

A mesma trama baseada no livro escrito por Thomas Cullinan foi dirigida por Don Siegel e estrelada por Clint Eastwood em 1971, desta vez é repaginada por Sofia Coppola que deixa que Nicole Kidman, Kirsten Dunst e Elle Fanning contarem o seu lado da história. Diferentemente do que foi exibido no longa de Diegel, tudo é contado sob o ponto de vista das mulheres daquela casa que há muito tempo não interagiam com o sexo masculino. O círculo amigável que toma conta dos personagens é a faísca à espera de um combustível para incendiar aquela casa. A diretora conduz com muita sensibilidade este romance com vários toques de mistério. Afinal, o clima daquele internato, principalmente entre o núcleo feminino, vai formentando para que o caos aconteça a qualquer momento entre as meninas, mas a virada que Sofia coloca em jogo transforma o filme dignamente.

O Estranho Que Nós Amamos seria um filme perfeito se não fosse por um erro incoerente da diretora em deixar a fotografia ser utilizada somente com a luz natural dos ambientes internos. Não há explicações para que Nicole Kidman desapareça enquanto caminha dentro de casa ou para que a cena de jantar seja tão desfocada a ponto de espremer os olhos para identificar quem é que está em cena. A escolha desta escuridão da diretora é incomodativa pois atrapalha na simplicidade de se sentar e assistir um filme. Enfim, esta falha da luz, não estraga totalmente este romance moderno de Copoola. O filme consegue compensar no todo resto. O elenco é formidável ao apresentar, de cada maneira, as personalidades do trio protagonista. Miss Martha (Nicole) é a mais racional da instituição, mas claro, como todo ser humano, não quer resistir ao charme de um soldado. Edwina (Kirsten) é uma adulta reprimida que obedece a cada ordem dada pela sua superior e é quem mais enxerga em John a oportunidade de uma nova vida. E tem Alicia (Elle) que é o retrato da adolescente rebelde que clama por atenção do homem da casa a qualquer custo.

Na companhia de mais três crianças, o núcleo feminino compreende o papel de dividir este filme que tem tudo para soar clichê, mas o roteiro enxuto foge de entregar um resultado antiquado. Sofia soube exatamente da onde partir e terminar a história, sem deixar pontas soltas. E melhor, deixa a narrativa eletrizante com a surpresa que Colin prepara para o terceiro ato. O ator sabe usar o charme vulnerável que o personagem se encontra para poder manipular e conquistar quando quiser. Além, claro, de nos fazer mudar de ideia sobre John instantaneamente no decorrer do filme.

Desde Maria Antonieta (2006) que, particularmente, Sofia Copoola não me empolgava com um filme feminino. Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013) e Um Lugar Qualquer (2010) passaram tão despercebidos que mal causaram alguma reação. Mas é bom vê-la triunfando com O Estranho Que Nós Amamos, que não só coroa a sua filmografia, mas como firma uma nova era de mulheres, seja atuando, escrevendo, dirigindo, no cinema.

• Texto escrito originalmente para o site do Correio do Povo

Dunkirk ★★★★

O mais novo filme do diretor Christopher Nolan, Dunkirk, chega nas salas de cinema no Brasil nesta quinta-feira, e antes mesmo da sua estreia, já era um dos mais aguardados pelos cinéfilos e fãs do realizador. Baseado na Operação Dínamo que resgatou mais de 330 mil homens da cidade que dá nome ao filme, durante a Segunda Guerra Mundial, a história mostra a luta pela sobrevivência da Força Expedicionária Britânica e de outras tropas aliadas no porto de Dunkirk, que estavam encurralados pelos nazistas. As autoridades já calculavam que seria uma missão impossível tirar o exército inglês daquele local, mas no final, acabou se tornando uma verdadeira vitória para uma nação que precisava ganhar esta batalha.

Christopher Nolan já pode ser considerado um grande mestre do cinema por entregar um filme, que pode ser considerado, no mínimo, perfeito. A execução do longa surpreende desde dos primeiros minutos com impactantes embates que não se cansam de se repetir durante a projeção. Com isso, a experiência de conferir Dunkirk nos cinemas é única e incrível devido à capacidade de transmitir cada sentido que transcorre na tela. Se alguém que não possui conhecimentos em edição e mixagem de som, poderá sentir todo o trabalho feito pela grande equipe sonora do longa que provoca toda a tensão e nervosismo do filme. Claro, tudo isso com um adicional da trilha sonora assinada por Hans Zimmer, provando ser um verdadeiro maestro na categoria. A direção de fotografia de Hoyte Van Hoytema é de uma extrema competência que nos permite viajar, lutar e salvar os soldados britânicos. Digo isso pois cada enquadramento é uma viagem aos nossos olhos e sem precisar de qualquer óculos 3D, a miragem de cada lugar que Nolan direciona a história é tão fascinante que nos coloca sob mesmo ângulo que os personagem e torna realística cada cena.

Sem serem devidamente apresentados, o elenco que não chega a ser tão surpreendente quanto o resto do filme. Mas claro, nada que seja decepcionante. Começando por Tommy (Fionn Whitehead), que é quem conduz inicialmente a história, mostra toda frieza traumática que a guerra pode deixar em um jovem. Seu rosto triste e desolador, faz com que conquiste rapidamente nossa torcida, que claro, aumenta quando se junta a Gibson (Aneurin Barnard), e ao Alex, interpretado por Harry Styles. O cantor que estreia em uma ficção nos cinemas não decepciona na sua atuação discreta, mas que também não passa despercebido. Quem também chama atenção é o ganhador do Oscar de ator coadjuvante em 2015 por Ponte dos Espiões, Mark Rylance, que integra uma das histórias paralelas ao ser o civil que não quer ficar de braços cruzados esperando a guerra chegar na sua cidade. Ao contrário da aflição que se encontra nos outros núcleos, o seu personagem é o equilíbrio necessário para os sem esperanças. Tanto que magistralmente é a firmeza necessária naquela maré. Repetindo a parceria, Nolan trouxe Tom Hardy, com quem trabalhou em O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), e Cillian Murphy, que foi o Espantalho em Batman Begins (2005), para completar o elenco.

Dunkirk é tão sensacional que é capaz de instigar nossa mente com a forma que o roteiro funciona com as três versões não-lineares do mesmo fato. Mas claro, para complicar mais um pouquinho, a tragédia na cidade varia entre uma semana, um dia e uma hora no longa, e também é narrada por vias diferentes como na praia, no mar e no céu. Em cada parte, a sobrevivência é o maior objetivo dos envolvidos e olha, não foi nada fácil. Com Nolan, nada é tão simples assim, não é mesmo? Então para não apenas mexer com nossas sensações, o diretor nos prende com este roteiro não tão simples assim, para não ser apenas uma história com início, começo e fim, mas para que fosse muito mais atraente do que isto. Nolan transformou, por completo, uma página com aparência de derrota em uma verdadeira obra de sobrevivência.

  • Texto escrito originalmente para o site do Correio do Povo 

Festival de Cinema de Gramado completa 45 edições comemorando resistência

O Matador, de Marcelo Galvão, fará sua estreia no Festival de Cinema de Gramado

Fazer cinema no Brasil não é nada fácil. Desde a concepção da história até subirem os créditos finais nas salas de cinema é um longo caminho. Muitos nem fazem ideia do que acontece por trás das câmeras. Produzir um festival então, tampouco é um exercício tranquilo. Neste cenário, o Festival de Cinema de Gramado chega à 45ª edição de forma ininterrupta celebrando sua resistência em um País que já sofreu muito culturalmente.

Dos anos da Ditadura Militar, onde a censura predominava sobre a liberdade de expressão, até o fim da Embrafilme, que era responsável por fomentar a produção e distribuição de filmes brasileiros, o Festival arranjava estratégias de se manter ativo no Brasil, como fez quando integrou filmes latino-americanos na sua programação. Segundo o jornalista, crítico de cinema e um dos curadores do Festival Marcos Santuario, o evento é digno de aplausos. “O Festival nasceu e cresceu sendo o principal palco de exibição e da discussão cinematográfica brasileira. Fazer 45 anos sem nunca ter parado uma única edição merece aplausos”, reflete. “Passa governos, curadores, políticas econômicas e o Festival segue. Dentro dessa perspectiva de acompanhar o crescimento do movimento brasileiro, latino e mundial, a gente só tem que reverenciar essa gente que durante todo este tempo fez o Festival de Cinema de Gramado existir”, complementa.

Colega de Santuario na curadoria do Festival desde 2012, o jornalista especializado em cinema Rubens Ewald Filho relata que tanto o público quanto os realizadores desejam participar do evento. “O fim da Embrafilme matou tudo e a cidade de Gramado custou um pouco até se recuperar. Mas agora que voltou os olhares para o cinema, as pessoas ficam louquinhas para vir para cá”, brinca. Rubens também observa que o Festival só tende a crescer. “Graças ao sucesso dos últimos anos, em especial ao ano passado, tudo mudou paras pessoas verem que há uma possibilidade a mais em Gramado”, declarou.

Rubens e Santuario integram a curadoria do Festival de Cinema de Gramado desde 2012. A diretora argentina Ewa Piwowarski entrou para o grupo em 2014. O sonho de ter o filme vinculado com o Festival de Cinema de Gramado, que ocorre entre os dias 17 e 26 de agosto, é um dos prestígios que muitos diretores desejam ter no currículo. Mesmo que não conquiste um Kikito, o “selo Gramado” nos longas selecionados pela curadoria demonstra uma qualidade em cima daquele trabalho, garante Santuario. “Quando selecionamos um filme para Gramado, ele é exibido e ganha toda mídia cinematográfica, produz um diálogo e um selo de Gramado, pois ele passou por um processo de exibição, discussão e análise”, explicou.

Gramado é o novo Cannes

Observando as mudanças que também ocorrem no cinema, a dupla afirmou que a discussão de novas tecnologias e novas formas de exibição devem ser discutidas no universo cinematográfico. Aproveitando o embalo da polêmica do Festival de Cannes deste ano ao ter o filme produzido pela Netflix, OKJA, entre os selecionados para mostra competitiva, a 45ª edição do evento serrano fará a primeira exibição do primeiro filme original Netflix produzido no Brasil, O Matador, de Marcelo Galvão.

“Eu briguei para trazer um filme do Netflix para cá, justamente para ter polêmica”, afirma Rubens. “Nós somos os primeiros a trazer um filme do Netflix, e Cannes fez aquele escândalo, foi uma burrice deles. Não se luta contra certas coisas. Com o progresso a gente não luta, a gente adere e se adapta”, opina o jornalista sobre levar filmes produzidos por plataformas on demand para as tradicionais salas de cinema.

Para Santuario, esta discussão de levar filmes produzidos pela Netflix é inevitável. “O cinema ainda pode ser um lugar de exibição, mas ele tem que abrir este caminho para outras formas de exibição. Gramado está aberto para isso e trazendo pessoas que inovam neste processo”, diz. “Nós estaremos parados no tempo e de costas para realidade, pois já existem diferentes maneiras de produzir, distribuir e exibir produções, e isso inclui o cinema que precisa ser repensado nessa ótica. A estratégia de distribuição do Netflix não inclui as salas de cinema e esta vai ser uma discussão muito interessante. Nós estamos aceitando o desafio e isto vai acontecer no Festival”, acrescenta.

Filmes inéditos e de qualidade

Projetando este aniversário significativo do Festival de Cinema de Gramado, Rubens acredita que a seleção deste ano foi a melhor já realizada pela curadoria. “Eu tenho a impressão que temos a melhor seleção desde que estou aqui. São filmes inéditos no Brasil, premiados e polêmicos”, analisa. “O que eu quero é melhorar as coisas para Gramado crescer, dos filmes só melhorarem e fazer novos cineastas serem revelados. Tudo isso me dá muito prazer e alegria”, pontua.

Conforme Santuario, o Festival vai exibir sete filmes inéditos no Brasil, sendo que quatro passaram somente em âmbito internacional e três são totalmente inéditos no País. “Os diretores querem Gramado como seu primeiro palco e estes filmes compõem um universo muito amplo da cinematografia contemporânea. Os diretores dialogam com novas possibilidades e é isso que a gente tenta apresentar todo ano para as pessoas entenderem que o cinema está mudando, o Brasil, o audiovisual estão mudando em vários aspectos”, afirma. “São filmes capazes de promoverem o diálogo mais amplo com o público, e isto inclui a cidade, o mercado e a crítica cinematográfica. Isso aproxima o cinema das pessoas.”, conclui.

  • Matéria escrita originalmente para o site do Correio do Povo 

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar ★★★

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar é disparado o melhor filme já feito do herói nos cinemas. Claro, o primeiro estrelado por Tobey Maguire sempre será o meu favorito de todos já produzidos, mas tenho que reconhecer que além do longa ter uma dinâmica muito empolgante, Tom Holland também foi um acerto em cheio como interprete de Peter Parker/Homem-Aranha. Desde dos créditos iniciais com o personagem muito empolgado com a possibilidade de se tornar um Vingador até o fim com a sua transformação, o carisma do ator domina boa parte da história. Colocar um adolescente de 15 anos como um super-herói sem torná-lo um metido à la Justin Bieber era um risco, mas o filme conseguiu se sair mega bem.

O humor característico da Marvel está presente e triunfa seguramente, e confesso que às vezes achava demais este excesso de diálogos engraçadinhos e piadinhas para descontrair. Porém, existem cenas e personagens que trabalham magnificamente com esta proposta. Começando com o núcleo de amigos de Peter Parker: MJ (Zendaya), que é a amiga que tem um crush em Peter e assume o ar rebelde e whatever, tão característicos nos bad boys nas tramas, a torna a mais cool da turma toda e foge do esterótipo de mocinha ingênua; Ned (Jacob Batalon) é o amigo nerd e gordinho que rouba a cena toda vez que aparece por causa da sua sinceridade e timing cômico excelente, e a nossa amada Tia May (Marisa Tomei) que foge completamente da figura antiquada de um adulto responsável por um adolescente e aquece nossos coraçãozinhos com sua presença tão leve e divertida.

Adrian Toomes (Michael Keaton) e Tony Stark (Robert Downey Jr.) carregam a tarefa de ser o vilão e o herói na vida do Homem-Aranha. Michael Keaton é o cara magoado com as manobras do sistema e se vinga discretamente ao longo dos anos dos Vingadores, e devo dizer que o ator sempre foi uma excelente escolha para o papel. Keaton tem esta cara ambígua que ao mesmo tempo que nos simpatizamos, ficamos surpresos com suas viradas. Ser o vilão da história toda deixou o filme melhor ainda. Destaque para cena do diálogo com Peter antes do baile da escola. E Tony Stark continua sendo Tony Stark. Usando toda sua riqueza e conhecimento para orientar Peter, ele não rouba o protagonismo do Homem-Aranha inexperiente. É aquela surpresa boa durante a ação e conclui a sua parte com seu jeitinho.

O filme dirigido por Jon Watts consegue, finalmente, dar uma nova identidade ao Homem-Aranha. Dou graças por ele não ter caído na tentação de recontar os mesmos passos de Peter Parker e a aranha, como foi com O Espetacular Homem-Aranha (2012) com Andrew Garfield, e que até hoje é inexplicável para mim. Como dito anteriormente, toda a agitação na abertura, se estende durante o filme e não deixa o clima decair. A proposta do roteiro em trazer sempre alguma ação em cada instante também sugere ao espectador ir montando junto com Peter a investigação destes criminosos que assombra a vizinhança. Homem-Aranha: De Volta Ao Lar está do jeito que tem que ser: moderno, inteligente e divertido.

Resumão: Guardiões da Galáxia Vol.2 | Corra | Laerte-Se | Strike A Pose

Nesta rotina que insiste em passar despercebida e numa velocidade que mal percebo, assisto filmes e não consigo inspiração o bastante para comentá-los. Para não ficar me pressionando e não tornar uma obrigação algo que gosto de fazer, vou fazer um resumão dos últimos filmes que conferi para registro e também para atualizar o meu pobre blog.

Guardiões da Galáxias Vol.2 ★★★: Eu sempre digo que não curto muito filmes de super-heróis, mas a verdade é que volta e meia lá estou assistindo alguém salvando a Terra de seres malignos. Confesso que não sabia da existência dos Guardiões da Galáxia até o lançamento do primeiro filme lá em 2014 e só fui assistir este ano antes do lançamento da sequência. Afinal, todos falavam tão bem do longa e da sua trilha sonora incrível. Obviamente não tem como fugir do carisma e da diversão que o primeiro filme trouxe e que consegue manter o ritmo no segundo. Talvez este volume dois dirigido por James Gunn tenha um bônus a mais por causa da fofa presença de Baby Groot (Vin Diesel) que proporciona as cenas mais hilárias e absurdamente queridas.

Líder da tropa toda, Peter Quill (Chris Pratt) desta vez tem uma missão pessoal a resolver acompanhado pelos colegas Gamorra (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista) e Rocket (Bradley Cooper), que repetindo a façanha, conseguem manter a simpatia e timing cômico sempre em alta. As músicas que acompanham a aventura do grupo casam perfeitamente com cada cena, parecendo até um longo videoclipe em tela grande. O meu momento sonoro especial fica por conta de The Chain por Fletwood Mac. Todo o enredo apenas reafirma o sentimento familiar que Guardiões da Galáxia acertou em investir desde do seu início destes pequenos seres desgarrados que sempre arranjam espaço para mais um.

Corra ★★★: O filme foi um dos mais ótimos acertos recentes do cinema ao usar uma temática social e abusar da sua imaginação. Corra tem um clima de suspense devido a presença de um personagem negro na casa da família da namorada que é escancaradamente racista. Veja as chances! Chris (Daniel Kaluuya) está ótimo no papel do jovem que passa o final de semana com os pais de Rose (Allison Williams) e que nem tão inocentemente assim, percebe que está pisando em um território que vai além do estranho.

O roteiro e direção de Jordan Peele possui muitos preconceitos que um negro sofre diariamente e isto é um dos triunfos do longa. Tudo isso pois o diretor soube colocar em pauta o racismo e também deu a volta por cima com estes embates. E o mais legal é que é a reviravolta caminha com suspense enquanto descobrimos qual é o mistério que ronda aquela casa e também coloca o terror em ação quando Chris tem seu momento de vingança. Corra é um dos ótimos exemplos em que se coloca um assunto delicado e o conta de um jeito bem mais interessante. Entretanto, os minutos finais deixam muito a desejar ao querer ser engraçadinho em um momento indesejado. Mas também nada que estrague a ótima produção de Peele.

Laerte-se ★★★: O primeiro documentário produzido pela Netflix Brasil não poderia ter se saído tão bem quanto foi com Laerte-se. Dirigido cuidadosamente por Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva, o filme descasca a cartunista Laerte que depois dos 60 anos assumiu sua homossexualidade e sua identidade feminina. Usando o bom humor como tom, a cartunista conta sua história para a jornalista Eliane Brum que a acompanha durante a reforma de sua casa. Uma ótima simbologia com a sua vida e também com o seu corpo, já que boa parte da conversa que Laerte discorre ao longo do documentário é sobre o que é ser mulher física e mentalmente. O que vai além de roupas e cabelos, mas também o que muda no coração e na mente de uma transgênero.

O documentário é sensível e paciente ao tocar na história de Laerte. Principalmente por trazer a reflexão de temas como a homossexualidade e transgênero numa plataforma acessível por todos. Quem sabe assim seja possível diminuir a intolerância e preconceito com uma simples sessão para compreender o outro, né? Laerte-se possui os elementos típicos de documentário, mas a narrativa se torna gostosa pois ficamos a vontade com o protagonista.  As intercalações com as charges revelam aos poucos como foi a sua transição. Eu, que sabia tão pouco sobre quem era Laerte, terminei o filme com a sensação de que a sempre conheci. Um dos ótimos feitos que Laerte-se faz é não precisar narrar cronologicamente a vida da chargista, mas pegando os tópicos que tornaram Laerte na mulher que é hoje.

Strike a Pose (2016) ★★★★: Aproveitando o embalo de documentários disponíveis no Netflix, finalmente pude conferir o filme que traz a tona a vida pós-Madonna dos ex-dançarinos da turnê Blond Ambition, de 1990. Particularmente falando, eu considero esta fase da cantora como a mais importante da sua carreira. Foi o momento de renascimento de Madonna após um divórcio conturbado com Sean Penn e também foi com álbum Like A Prayer que ela se posicionou no mundo da música e marcou o seu lugar na história com um disco maduro e cheio de mensagens de empoderamento feminino em uma época que mal se falava sobre feminismo. Com isso, a turnê Blond Ambition carregava um peso ainda maior para Madonna que tratava de revolucionar o pop e mostrar que era definitivamente uma artista de verdade. E não foi somente para ela que esta fase significaria algo mais, mas também para sete dançarinos que foram escolhidos a dedo pela cantora. Totalmente inexperientes do show business, os meninos se deslumbravam com o sucesso e o grande reconhecimento que este trabalho trouxe para suas vidas. Porém, uma hora os holofotes se apagam.

Strike A Pose é um filme maravilhoso, sensível e real. O documentário recorda a história dos dançarinos que ao mesmo tempo que lidavam com a fama também tinham bandeiras como o homossexualismo e a epidemia da Aids para conciliar em uma década tão preconceituosa como o fim dos anos 1980 e início dos 1990. Com o também documentário Na Cama Com Madonna (1991), eles se transformaram em um símbolo e inspiração para a comunidade gay. Apesar de algumas mágoas, o longa dirigido por Ester Gould e Reijer Zwaan não tem como objetivo atacar Madonna e colocá-los como vítimas, mas de revelar o amadurecimento pessoal de cada dançarino. Afinal, todos afirmaram que cada erro e loucura que cometeram no passado foi essencial para se tornarem quem são hoje. E se cada jovem puder aprender com o pouco que eles puderam compartilhar, seja na dança ou com sua história, tudo terá valido a pena.

Feud: Bette and Joan ★★★★★

Quando Feud: Bette and Joan foi anunciado como uma série que retrataria os bastidores do filme O Que Terá Acontecido A Baby Jane? (1962), em que estrelavam Bette Davis e Joan Crawford, duas atrizes que se odiavam profundamente, eu estava esperando uma série de comédia. Já que pelo teor dos trailers com uma trilha cômica e mostrando cenas um tanto hilárias, achei que a série mostraria esta rivalidade de forma mais leve. Mas não! A série me surpreendeu e muito ao dar um olhar mais dramático e respeitoso a história de Bette e Joan. Afinal, a gente não percebe como estamos acostumados a colocar uma mulher contra outra só para ver faíscas de brigas e como isto rende um entretenimento barato para os outros. Uma coisa é você simplesmente não simpatizar com outra pessoa e isto é normal, e está tudo bem isto acontecer. Agora, promover uma eterna batalha de egos só para render público e dinheiro para Hollywood, aí é muita baixaria.

Na série, Bette (Susan Sarandon) e Joan (Jessica Lange) já estão afastadas da mídia por um bom tempo. Tem a questão da idade. Ambas estão velhas e para Hollywood, elas já não são consideradas atrativas para um filme. Também, naquela época de 1960, o cinema ainda era o grande painel onde os artistas mais importantes estavam em cartazes. A televisão era um lugar para os sem talentos. Por isso, era raro quando algum ator ou atriz migrarem para produções na TV. Bette e Joan foram as rainhas do cinema nos anos 1930, 40 e 50. Uma era extremamente talentosa e ganhadora de dois Oscars. A outra foi considerada a atriz mais linda de todos os tempos e era desejada para estar nas telas por causa disso. O que faltava em uma, tinha na outra. E as duas sempre se odiavam por causa desta comparação, que os outros faziam, e que infelizmente não poderiam corresponder. Cansada de não obter mais trabalho, Joan Crawford foi atrás de um roteiro em que poderia estrelar conforme a sua idade permitia. Encontrou o livro O Que Terá Acontecido A Baby Jane? e não poderia ter sido a melhor história para ela e sua rival, Bette Davis, terem a sua volta aos cinemas. Mas não foi fácil conseguir convencer Bette e nem do então diretor do filme, Robert Adrich (Alfred Molina) a entrarem no projeto devido ao risco de ter duas mulheres velhas em um longa com um tema tão macabro. Mas quem viu uma oportunidade foi o produtor Jack Warner (Stanley Tucci) em lucrar em cima da famosa rivalidade das atrizes e provocar ainda mais brigas entre as duas para atrair público para ver o resultado final deste embate.

Idealizado pelos produtores Jaffe Cohen, Michael Zan e Ryan Murphy – o mesmo de American Crime Story: The People vs O.J. Simpson – Feud exibe duas histórias sobre dor, ser mulher e solidão. É muito interessante como a série proporcionou que víssemos como a indústria cinematográfica é ingrata com suas estrelas e principalmente como quem sofre e continuam sofrendo são sempre as mulheres. Por se tratar de um meio machista e sexista, Hollywood era muito severa com atrizes mais velhas ao colocarem elas para fora do jogo quando muito já foram responsáveis pelo sucesso de um filme e também por marcarem história no cinema. E também por sempre a submeterem a papéis insignificantes ou convencionais como a mãe louca, a avó morrendo ou uma bruxa má e etc, além de que Hollywood não apostava também em mulheres assumindo a direção de um filme ou um cargo mais importante em um set de filmagem. Tudo isso influenciou para que Bette e Joan fossem as maiores vítimas deste preconceito todo.  A série se mostrou extremamente importante em exibir casos particulares das atrizes e dos demais coadjuvantes para que fosse compreendido esta dor que é ser mulher em um meio tão competitivo e dominado pelos homens. O que não difere de nenhum outro lugar do mundo. Se for abrir o olho em volta, a situação pode se repetir sem que seja em um set de filmagem ou em uma cerimônia do Oscar. As mulheres estão sempre tendo que dar o dobro para ter o mesmo reconhecimento que um homem. E a idade continua beneficiando ainda só os homens, já perceberam isso?

Outro detalhe belíssimo que Feud produz é abordar mais o lado de Joan Crwaford do que de Bette Davis como forma dar uma nova chance para esta estrela tão ofuscada por todos de contar a sua história. Se você começa achando que ela é muito mimimi, depois percebe que ela foi a mais abandonada por todos. A série abre espaço para que finalmente Joan possa ser celebrada e respeitada como todas as atrizes da época de ouro de Hollywood. Jessica Lange, responsável por Joan, é uma reencarnação daquele glamour todo da época. Sem contar que tanto ela quanto Susan Sarandon conseguiram ao mesmo tempo darem o seu perfil para os personagens e ficarem idênticas a Bette e Joan. Porém, Susan consegue nos espantar ainda mais com sua performance e ao se fantasiar de Baby Jane, você percebe que Bette Davis está ali, na alma da atriz. Mamacita (Jackie Hoffman) é a personagem mais carismática e feminista da série toda! Ela é responsável pelo discurso empoderado apontando estatísticas de que a população feminina estava aumentando na época nos Estados Unidos e que com isso um novo público seria formado para o cinema. Logo, seria preciso que mais filmes com e para mulheres fossem produzidos no futuro.  E não é que ela estava com a razão? Mamacita é a mulher mais forte, inteligente e sensível de Feud e que se mostrou muito necessário para que não só Joan colocasse os pés nos chão, mas também para nós que assistíamos.

Feud: Bette and Joan é uma série feminina muito importante. Porque como apontei antes, a série fala muito do universo da mulher e como é difícil segurar vários papéis que a vida nos coloca. Assim como é difícil ver as chances diminuindo conforme a sua idade vai aumentando. Bette e Joan poderiam ter tido uma vida muito menos dolorosa e solitária se o mundo não fosse machista. Mas como Mamacita previu, o mundo ainda será todo nosso.

Mulher-Maravilha ★★★★★

Mulher-Maravilha chega aos cinemas com muitas responsabilidades para cumprir na história da indústria. Além de ser o primeiro filme, de fato, protagonizado por uma mulher no papel de uma super-heroína, o longa também tem a missão de salvar a pele da DC Comics depois de fiascos como Esquadrão Suicida e Batman Vs Superman: A Origem da Justiça. E a verdade é que nunca houve tantos acertos em um filme da DC. Começando pela escolha da diretora Patty Jenkins  que soube colocar a força feminina em um universo cheio de super-heróis e agora abre um novo caminho para esta representatividade que tanto precisávamos. Em uma rápida pesquisa, é possível encontrar apenas três filmes inspirados nos quadrinhos da Marvel e DC que possuem uma mulher como protagonista: Supergirl (1984) com Helen Slater, Mulher-Gato (2003) com Halle Barry e Elektra (2004) com Jennifer Garner. Porém, nem por isso significa que são obras originaisO primeiro é uma versão feminina do Superman e as duas últimas são spin-off de Batman e o Demolidor, que na verdade nem são heroínas de verdade. A Mulher-Maravilha tem este frescor por se tratar de uma história que desde sempre caminhou com as próprias pernas.

O filme não necessariamente apresenta uma continuação de Batman Vs Superman, onde Gal Gadot fez a sua estreia no papel, mas apresenta as origens da amazona que nasceu e foi criada na ilha Themyscira. O lugar tropical, pacífico e colorido que é habitado somente por mulheres contrasta com o mundo frio, violento e triste dos humanos que sofrem com os horrores da Grande Guerra (como é mencionado no filme), ou como é popularmente conhecido, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A rotina na ilha muda quando o espião britânico Steve Trevor (Chris Pine) é salvo por Diana (Gadot) após fugir dos alemães. Ao saber do que acontece no mundo dos homens, Diana é tomada pelo espírito de altruísmo e vê a necessidade de acompanhar o soldado em Londres para ajudar a salvar a humanidade. A partir deste ponto que o filme de Jenkins começa a ganhar forma e desenvolver a transformação de uma jovem ingênua para uma mulher guerreira.

Mulher-Maravilha possui os mesmos elementos que estamos muito acostumados a assistir em filmes de super-heróis e nem por isso se torna extremamente previsível e cansativo. Afinal, se não fosse para lutar contra o mal, os personagens não carregariam o título de heróis no fim do dia. Como uma espectadora, o longa provoca um orgulho tremendo em assistir uma mulher lutando bravamente contra os vilões assim como vemos Homem-Aranha, Thor, Batman, Superman e até o inesperado Deadpool constantemente nos cinemas. Para uma mulher, isso tem um significado imenso de igualdade e representatividade nas telas. E não se trata apenas das questões de gênero. O longa também abre espaço para que Diana construa sua própria percepção sobre outra realidade bem distante da perfeição da sua casa ao conhecer problemas raciais que atingem os seres-humanos. Como acontece com seus parceiros de guerra, o árabe Sammer (Saïd Taghmaoui) e o índio The Chief (Eugene Brave Rock), e também toma parte de batalhas pessoais que algumas pessoas enfrentam como o alcoólatra  Charlie (Ewen Bremner). Eles também entram na Grande Guerra por seus respectivos motivos, mas com o propósito de não se sentirem mais omissos em relação a tanto sofrimento. Assim como a protagonista, todos mostram que a honra de ajudar o próximo pode ser mais recompensadora do que simplesmente fugir quando há um pedido de socorro de um estranho.

A atriz Gal Gadot não poderia ter sido a melhor escolha para o papel. Ela pode apresentar uma aparência inofensiva, mas está longe de entregar uma heroína fraca. Com poucos filmes no currículo e com experiência de sobra no exército de Israel – onde serviu por dois anos-, Gadot mostrou uma interpretação competente e segura durante a projeção. A sua inocência perante o mundo dos homens traz os risos para aliviar a tensão da história e o mesmo ocorre com Chris Pine ao conhecer Themyscira. O ator também não está nada mal e é responsável por uma das cenas mais emocionantes. Mostrando totalmente o impacto que Diana teve na sua vida. O romance entre os dois também é transmitido de forma doce e equilibrada. Já que qualquer exagero poderia atrapalhar os objetivos do casal. Quem também merece todos os elogios possíveis é Robin Wright como Antíope. A postura forte da atriz é transmitido tanto pelo seu físico quanto pelas suas palavras. É extremamente arrepiante vê-la cavalgando e lutando com seu batalhão, e não é difícil de entender o por quê Diana querer tanto se tornar uma amazona como Antíope.

A diretora Patty Jenkins fez o que qualquer outro profissional faria para tornar um filme tão esperado se tornar um bom resultado: assistir os últimos trabalhos da DC Comics e fugir dos erros. O longa funciona perfeitamente e entrega tudo aquilo que as expectativas, principalmente as femininas e fãs do gênero, tanto aguardavam. Tem lutas incríveis, trilha sonora empolgante e um roteiro simples e inteligente. Sinceramente não enxergo defeitos que poderiam prejudicar o longa. A união de ter uma super-heroína protagonizando um blockbuster dirigido pela primeira vez por uma mulher reproduz uma imensa vitória para o público feminino em um gênero que é tão dominado pelos homens. Não que seja um descaso com os antigos heróis e que tanto nos acompanharam ao longo destes anos, mas a chegada da Diana Prince nos cinemas é tudo que nós, mulheres, queríamos e precisávamos. Talvez nem todos compreendam a mensagem que o filme carrega para o sexo feminino, mas a verdade é que a indústria, que é tão carente desta representatividade, finalmente tomou coragem para investir em um filme feminista como Mulher-Maravilha. O futuro vai agradecer a este projeto que certamente vai ser fonte de inspiração para que mais heroínas possam salvar o mundo. Ou pelo menos, a reputação da DC Comics.