Resumão: Guardiões da Galáxia Vol.2 | Corra | Laerte-Se | Strike A Pose

Nesta rotina que insiste em passar despercebida e numa velocidade que mal percebo, assisto filmes e não consigo inspiração o bastante para comentá-los. Para não ficar me pressionando e não tornar uma obrigação algo que gosto de fazer, vou fazer um resumão dos últimos filmes que conferi para registro e também para atualizar o meu pobre blog.

Guardiões da Galáxias Vol.2 ★★★: Eu sempre digo que não curto muito filmes de super-heróis, mas a verdade é que volta e meia lá estou assistindo alguém salvando a Terra de seres malignos. Confesso que não sabia da existência dos Guardiões da Galáxia até o lançamento do primeiro filme lá em 2014 e só fui assistir este ano antes do lançamento da sequência. Afinal, todos falavam tão bem do longa e da sua trilha sonora incrível. Obviamente não tem como fugir do carisma e da diversão que o primeiro filme trouxe e que consegue manter o ritmo no segundo. Talvez este volume dois dirigido por James Gunn tenha um bônus a mais por causa da fofa presença de Baby Groot (Vin Diesel) que proporciona as cenas mais hilárias e absurdamente queridas.

Líder da tropa toda, Peter Quill (Chris Pratt) desta vez tem uma missão pessoal a resolver acompanhado pelos colegas Gamorra (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista) e Rocket (Bradley Cooper), que repetindo a façanha, conseguem manter a simpatia e timing cômico sempre em alta. As músicas que acompanham a aventura do grupo casam perfeitamente com cada cena, parecendo até um longo videoclipe em tela grande. O meu momento sonoro especial fica por conta de The Chain por Fletwood Mac. Todo o enredo apenas reafirma o sentimento familiar que Guardiões da Galáxia acertou em investir desde do seu início destes pequenos seres desgarrados que sempre arranjam espaço para mais um.

Corra ★★★: O filme foi um dos mais ótimos acertos recentes do cinema ao usar uma temática social e abusar da sua imaginação. Corra tem um clima de suspense devido a presença de um personagem negro na casa da família da namorada que é escancaradamente racista. Veja as chances! Chris (Daniel Kaluuya) está ótimo no papel do jovem que passa o final de semana com os pais de Rose (Allison Williams) e que nem tão inocentemente assim, percebe que está pisando em um território que vai além do estranho.

O roteiro e direção de Jordan Peele possui muitos preconceitos que um negro sofre diariamente e isto é um dos triunfos do longa. Tudo isso pois o diretor soube colocar em pauta o racismo e também deu a volta por cima com estes embates. E o mais legal é que é a reviravolta caminha com suspense enquanto descobrimos qual é o mistério que ronda aquela casa e também coloca o terror em ação quando Chris tem seu momento de vingança. Corra é um dos ótimos exemplos em que se coloca um assunto delicado e o conta de um jeito bem mais interessante. Entretanto, os minutos finais deixam muito a desejar ao querer ser engraçadinho em um momento indesejado. Mas também nada que estrague a ótima produção de Peele.

Laerte-se ★★★: O primeiro documentário produzido pela Netflix Brasil não poderia ter se saído tão bem quanto foi com Laerte-se. Dirigido cuidadosamente por Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva, o filme descasca a cartunista Laerte que depois dos 60 anos assumiu sua homossexualidade e sua identidade feminina. Usando o bom humor como tom, a cartunista conta sua história para a jornalista Eliane Brum que a acompanha durante a reforma de sua casa. Uma ótima simbologia com a sua vida e também com o seu corpo, já que boa parte da conversa que Laerte discorre ao longo do documentário é sobre o que é ser mulher física e mentalmente. O que vai além de roupas e cabelos, mas também o que muda no coração e na mente de uma transgênero.

O documentário é sensível e paciente ao tocar na história de Laerte. Principalmente por trazer a reflexão de temas como a homossexualidade e transgênero numa plataforma acessível por todos. Quem sabe assim seja possível diminuir a intolerância e preconceito com uma simples sessão para compreender o outro, né? Laerte-se possui os elementos típicos de documentário, mas a narrativa se torna gostosa pois ficamos a vontade com o protagonista.  As intercalações com as charges revelam aos poucos como foi a sua transição. Eu, que sabia tão pouco sobre quem era Laerte, terminei o filme com a sensação de que a sempre conheci. Um dos ótimos feitos que Laerte-se faz é não precisar narrar cronologicamente a vida da chargista, mas pegando os tópicos que tornaram Laerte na mulher que é hoje.

Strike a Pose (2016) ★★★★: Aproveitando o embalo de documentários disponíveis no Netflix, finalmente pude conferir o filme que traz a tona a vida pós-Madonna dos ex-dançarinos da turnê Blond Ambition, de 1990. Particularmente falando, eu considero esta fase da cantora como a mais importante da sua carreira. Foi o momento de renascimento de Madonna após um divórcio conturbado com Sean Penn e também foi com álbum Like A Prayer que ela se posicionou no mundo da música e marcou o seu lugar na história com um disco maduro e cheio de mensagens de empoderamento feminino em uma época que mal se falava sobre feminismo. Com isso, a turnê Blond Ambition carregava um peso ainda maior para Madonna que tratava de revolucionar o pop e mostrar que era definitivamente uma artista de verdade. E não foi somente para ela que esta fase significaria algo mais, mas também para sete dançarinos que foram escolhidos a dedo pela cantora. Totalmente inexperientes do show business, os meninos se deslumbravam com o sucesso e o grande reconhecimento que este trabalho trouxe para suas vidas. Porém, uma hora os holofotes se apagam.

Strike A Pose é um filme maravilhoso, sensível e real. O documentário recorda a história dos dançarinos que ao mesmo tempo que lidavam com a fama também tinham bandeiras como o homossexualismo e a epidemia da Aids para conciliar em uma década tão preconceituosa como o fim dos anos 1980 e início dos 1990. Com o também documentário Na Cama Com Madonna (1991), eles se transformaram em um símbolo e inspiração para a comunidade gay. Apesar de algumas mágoas, o longa dirigido por Ester Gould e Reijer Zwaan não tem como objetivo atacar Madonna e colocá-los como vítimas, mas de revelar o amadurecimento pessoal de cada dançarino. Afinal, todos afirmaram que cada erro e loucura que cometeram no passado foi essencial para se tornarem quem são hoje. E se cada jovem puder aprender com o pouco que eles puderam compartilhar, seja na dança ou com sua história, tudo terá valido a pena.

Feud: Bette and Joan ★★★★★

Quando Feud: Bette and Joan foi anunciado como uma série que retrataria os bastidores do filme O Que Terá Acontecido A Baby Jane? (1962), em que estrelavam Bette Davis e Joan Crawford, duas atrizes que se odiavam profundamente, eu estava esperando uma série de comédia. Já que pelo teor dos trailers com uma trilha cômica e mostrando cenas um tanto hilárias, achei que a série mostraria esta rivalidade de forma mais leve. Mas não! A série me surpreendeu e muito ao dar um olhar mais dramático e respeitoso a história de Bette e Joan. Afinal, a gente não percebe como estamos acostumados a colocar uma mulher contra outra só para ver faíscas de brigas e como isto rende um entretenimento barato para os outros. Uma coisa é você simplesmente não simpatizar com outra pessoa e isto é normal, e está tudo bem isto acontecer. Agora, promover uma eterna batalha de egos só para render público e dinheiro para Hollywood, aí é muita baixaria.

Na série, Bette (Susan Sarandon) e Joan (Jessica Lange) já estão afastadas da mídia por um bom tempo. Tem a questão da idade. Ambas estão velhas e para Hollywood, elas já não são consideradas atrativas para um filme. Também, naquela época de 1960, o cinema ainda era o grande painel onde os artistas mais importantes estavam em cartazes. A televisão era um lugar para os sem talentos. Por isso, era raro quando algum ator ou atriz migrarem para produções na TV. Bette e Joan foram as rainhas do cinema nos anos 1930, 40 e 50. Uma era extremamente talentosa e ganhadora de dois Oscars. A outra foi considerada a atriz mais linda de todos os tempos e era desejada para estar nas telas por causa disso. O que faltava em uma, tinha na outra. E as duas sempre se odiavam por causa desta comparação, que os outros faziam, e que infelizmente não poderiam corresponder. Cansada de não obter mais trabalho, Joan Crawford foi atrás de um roteiro em que poderia estrelar conforme a sua idade permitia. Encontrou o livro O Que Terá Acontecido A Baby Jane? e não poderia ter sido a melhor história para ela e sua rival, Bette Davis, terem a sua volta aos cinemas. Mas não foi fácil conseguir convencer Bette e nem do então diretor do filme, Robert Adrich (Alfred Molina) a entrarem no projeto devido ao risco de ter duas mulheres velhas em um longa com um tema tão macabro. Mas quem viu uma oportunidade foi o produtor Jack Warner (Stanley Tucci) em lucrar em cima da famosa rivalidade das atrizes e provocar ainda mais brigas entre as duas para atrair público para ver o resultado final deste embate.

Idealizado pelos produtores Jaffe Cohen, Michael Zan e Ryan Murphy – o mesmo de American Crime Story: The People vs O.J. Simpson – Feud exibe duas histórias sobre dor, ser mulher e solidão. É muito interessante como a série proporcionou que víssemos como a indústria cinematográfica é ingrata com suas estrelas e principalmente como quem sofre e continuam sofrendo são sempre as mulheres. Por se tratar de um meio machista e sexista, Hollywood era muito severa com atrizes mais velhas ao colocarem elas para fora do jogo quando muito já foram responsáveis pelo sucesso de um filme e também por marcarem história no cinema. E também por sempre a submeterem a papéis insignificantes ou convencionais como a mãe louca, a avó morrendo ou uma bruxa má e etc, além de que Hollywood não apostava também em mulheres assumindo a direção de um filme ou um cargo mais importante em um set de filmagem. Tudo isso influenciou para que Bette e Joan fossem as maiores vítimas deste preconceito todo.  A série se mostrou extremamente importante em exibir casos particulares das atrizes e dos demais coadjuvantes para que fosse compreendido esta dor que é ser mulher em um meio tão competitivo e dominado pelos homens. O que não difere de nenhum outro lugar do mundo. Se for abrir o olho em volta, a situação pode se repetir sem que seja em um set de filmagem ou em uma cerimônia do Oscar. As mulheres estão sempre tendo que dar o dobro para ter o mesmo reconhecimento que um homem. E a idade continua beneficiando ainda só os homens, já perceberam isso?

Outro detalhe belíssimo que Feud produz é abordar mais o lado de Joan Crwaford do que de Bette Davis como forma dar uma nova chance para esta estrela tão ofuscada por todos de contar a sua história. Se você começa achando que ela é muito mimimi, depois percebe que ela foi a mais abandonada por todos. A série abre espaço para que finalmente Joan possa ser celebrada e respeitada como todas as atrizes da época de ouro de Hollywood. Jessica Lange, responsável por Joan, é uma reencarnação daquele glamour todo da época. Sem contar que tanto ela quanto Susan Sarandon conseguiram ao mesmo tempo darem o seu perfil para os personagens e ficarem idênticas a Bette e Joan. Porém, Susan consegue nos espantar ainda mais com sua performance e ao se fantasiar de Baby Jane, você percebe que Bette Davis está ali, na alma da atriz. Mamacita (Jackie Hoffman) é a personagem mais carismática e feminista da série toda! Ela é responsável pelo discurso empoderado apontando estatísticas de que a população feminina estava aumentando na época nos Estados Unidos e que com isso um novo público seria formado para o cinema. Logo, seria preciso que mais filmes com e para mulheres fossem produzidos no futuro.  E não é que ela estava com a razão? Mamacita é a mulher mais forte, inteligente e sensível de Feud e que se mostrou muito necessário para que não só Joan colocasse os pés nos chão, mas também para nós que assistíamos.

Feud: Bette and Joan é uma série feminina muito importante. Porque como apontei antes, a série fala muito do universo da mulher e como é difícil segurar vários papéis que a vida nos coloca. Assim como é difícil ver as chances diminuindo conforme a sua idade vai aumentando. Bette e Joan poderiam ter tido uma vida muito menos dolorosa e solitária se o mundo não fosse machista. Mas como Mamacita previu, o mundo ainda será todo nosso.

Mulher-Maravilha ★★★★★

Mulher-Maravilha chega aos cinemas com muitas responsabilidades para cumprir na história da indústria. Além de ser o primeiro filme, de fato, protagonizado por uma mulher no papel de uma super-heroína, o longa também tem a missão de salvar a pele da DC Comics depois de fiascos como Esquadrão Suicida e Batman Vs Superman: A Origem da Justiça. E a verdade é que nunca houve tantos acertos em um filme da DC. Começando pela escolha da diretora Patty Jenkins  que soube colocar a força feminina em um universo cheio de super-heróis e agora abre um novo caminho para esta representatividade que tanto precisávamos. Em uma rápida pesquisa, é possível encontrar apenas três filmes inspirados nos quadrinhos da Marvel e DC que possuem uma mulher como protagonista: Supergirl (1984) com Helen Slater, Mulher-Gato (2003) com Halle Barry e Elektra (2004) com Jennifer Garner. Porém, nem por isso significa que são obras originaisO primeiro é uma versão feminina do Superman e as duas últimas são spin-off de Batman e o Demolidor, que na verdade nem são heroínas de verdade. A Mulher-Maravilha tem este frescor por se tratar de uma história que desde sempre caminhou com as próprias pernas.

O filme não necessariamente apresenta uma continuação de Batman Vs Superman, onde Gal Gadot fez a sua estreia no papel, mas apresenta as origens da amazona que nasceu e foi criada na ilha Themyscira. O lugar tropical, pacífico e colorido que é habitado somente por mulheres contrasta com o mundo frio, violento e triste dos humanos que sofrem com os horrores da Grande Guerra (como é mencionado no filme), ou como é popularmente conhecido, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A rotina na ilha muda quando o espião britânico Steve Trevor (Chris Pine) é salvo por Diana (Gadot) após fugir dos alemães. Ao saber do que acontece no mundo dos homens, Diana é tomada pelo espírito de altruísmo e vê a necessidade de acompanhar o soldado em Londres para ajudar a salvar a humanidade. A partir deste ponto que o filme de Jenkins começa a ganhar forma e desenvolver a transformação de uma jovem ingênua para uma mulher guerreira.

Mulher-Maravilha possui os mesmos elementos que estamos muito acostumados a assistir em filmes de super-heróis e nem por isso se torna extremamente previsível e cansativo. Afinal, se não fosse para lutar contra o mal, os personagens não carregariam o título de heróis no fim do dia. Como uma espectadora, o longa provoca um orgulho tremendo em assistir uma mulher lutando bravamente contra os vilões assim como vemos Homem-Aranha, Thor, Batman, Superman e até o inesperado Deadpool constantemente nos cinemas. Para uma mulher, isso tem um significado imenso de igualdade e representatividade nas telas. E não se trata apenas das questões de gênero. O longa também abre espaço para que Diana construa sua própria percepção sobre outra realidade bem distante da perfeição da sua casa ao conhecer problemas raciais que atingem os seres-humanos. Como acontece com seus parceiros de guerra, o árabe Sammer (Saïd Taghmaoui) e o índio The Chief (Eugene Brave Rock), e também toma parte de batalhas pessoais que algumas pessoas enfrentam como o alcoólatra  Charlie (Ewen Bremner). Eles também entram na Grande Guerra por seus respectivos motivos, mas com o propósito de não se sentirem mais omissos em relação a tanto sofrimento. Assim como a protagonista, todos mostram que a honra de ajudar o próximo pode ser mais recompensadora do que simplesmente fugir quando há um pedido de socorro de um estranho.

A atriz Gal Gadot não poderia ter sido a melhor escolha para o papel. Ela pode apresentar uma aparência inofensiva, mas está longe de entregar uma heroína fraca. Com poucos filmes no currículo e com experiência de sobra no exército de Israel – onde serviu por dois anos-, Gadot mostrou uma interpretação competente e segura durante a projeção. A sua inocência perante o mundo dos homens traz os risos para aliviar a tensão da história e o mesmo ocorre com Chris Pine ao conhecer Themyscira. O ator também não está nada mal e é responsável por uma das cenas mais emocionantes. Mostrando totalmente o impacto que Diana teve na sua vida. O romance entre os dois também é transmitido de forma doce e equilibrada. Já que qualquer exagero poderia atrapalhar os objetivos do casal. Quem também merece todos os elogios possíveis é Robin Wright como Antíope. A postura forte da atriz é transmitido tanto pelo seu físico quanto pelas suas palavras. É extremamente arrepiante vê-la cavalgando e lutando com seu batalhão, e não é difícil de entender o por quê Diana querer tanto se tornar uma amazona como Antíope.

A diretora Patty Jenkins fez o que qualquer outro profissional faria para tornar um filme tão esperado se tornar um bom resultado: assistir os últimos trabalhos da DC Comics e fugir dos erros. O longa funciona perfeitamente e entrega tudo aquilo que as expectativas, principalmente as femininas e fãs do gênero, tanto aguardavam. Tem lutas incríveis, trilha sonora empolgante e um roteiro simples e inteligente. Sinceramente não enxergo defeitos que poderiam prejudicar o longa. A união de ter uma super-heroína protagonizando um blockbuster dirigido pela primeira vez por uma mulher reproduz uma imensa vitória para o público feminino em um gênero que é tão dominado pelos homens. Não que seja um descaso com os antigos heróis e que tanto nos acompanharam ao longo destes anos, mas a chegada da Diana Prince nos cinemas é tudo que nós, mulheres, queríamos e precisávamos. Talvez nem todos compreendam a mensagem que o filme carrega para o sexo feminino, mas a verdade é que a indústria, que é tão carente desta representatividade, finalmente tomou coragem para investir em um filme feminista como Mulher-Maravilha. O futuro vai agradecer a este projeto que certamente vai ser fonte de inspiração para que mais heroínas possam salvar o mundo. Ou pelo menos, a reputação da DC Comics.

Logan Noir ★★★★★

Eu nem ia comentar sobre a versão noir de Logan, mas o impacto foi tão profundo que esta versão especial merecia um textinho. Exibido em uma sessão única nessa segunda-feira pelo Brasil, Logan Noir recebeu este formato após um ensaio do personagem ter sido divulgado em preto e branco antes do lançamento do filme. E como o longa de James Mangold recebeu boas críticas e reuniu grande público, nada mais justo do que aproveitar o embalo e relançar a produção todinha com este novo filtro. A proposta não só deu certo como casou exatamente com o clima de despedida do filme. Sim, já sabemos que este é o último em que Hugh Jackman interpretará o Wolverine etc e tal, foi lançado faz um tempo, então quando digo que é despedida, cabe cada um julgar ou ir assistir para saber o que acontece. Não é spoiler, viu?

Desde dos minutos iniciais, a escuridão toma conta da cena em que somos introduzidos a rotina exausta de Logan e isso se torna constante durante a projeção. A escuridão como cenário e a cor da pele desenhando o corpo dos personagens acabaram deixando cada frame mais artístico e muito bem fotografado. Mesmo que ele não tenha sido filmado pensando nesta proposta, Logan encaixou literalmente em p&b. Muitas vezes tive a sensação que estava lendo páginas de quadrinhos no telão e eu não queria piscar em momento algum, pois cada instante era lindo demais para perder. Nenhuma palavra saberia traduzir o significado de tanta beleza num cinema. As cenas de lutas são fantásticas e apesar de serem rápidas, é possível enxergar os detalhes que em uma versão colorida, já se tornaram banais. O sangue, a roupa, o suor, a expressão e as coreografias formam uma bela orquestra de ação. Os trechos road movie ficaram com aspecto vintage e saudosista, porque já vivi aqueles momentos com Logan, Professor Xavier (Patrick Stewart) e Laura (Dafne Kee), e agora relembro com gosto diferente.

A verdade é que Logan Noir foi uma das melhores experiências que o cinema já me proporcionou. Sessões especiais do tipo são raras e eu me arrependeria se perdesse uma chance única de poder ver uma obra (a curadoria deste blog já o definiu assim) como esta num telão. O casamento da história e desta nova técnica só tornou o longa melhor. O roteiro de Logan também já comprovava o amadurecimento que vem ocorrendo nos filmes de super-heróis. Acredito que desde da trilogia Batman dirigida por Christopher Nolan, não houve nenhum outro personagem com este teor dramático em volta de um protagonista que vive numa cidade urbana e tem uma rotina próxima a nossa. Apesar de ter uma graça aqui e ali, este filme está longe de ter um predomínio humorístico. Fugindo totalmente de outros produtos da Marvel no cinema. O que não é problema. De fato é até um alívio para quem quer algo diferente. Por fim, o filme na versão noir intensifica a melancolia e tristeza na vida de um homem que não encontra mais motivos para viver. Logan Noir é a prova de que existe poesia na dor.

A viagem sonora de Harry Styles

Não há palavras que possam descrever o quanto estou viciada em Harry Styles. O primeiro álbum solo do cantor me surpreendeu não só pela qualidade das canções, mas principalmente pela maturidade que não estava esperando. Já que ele veio de uma boy band, e não que One Direction não fosse bom porque eu adorava, o normal é esperar músicas exageradamente comerciais e grudentas. Mas não. Em Harry Styles, a pegada é tão nostálgica que nem parece que estamos ouvindo um CD produzido em 2017. O disco não tem um tom definido, mas é uma viagem sonora gostosa de embarcar, e eu viajo milhares de vezes todos os dias.

Eu costumo classificar um CD como favorito quando escuto sem pular uma música sequer e aqui, não vou mentir que pulo uma vez apenas, mas só porque tenho outras preferidas na frente. Há uma variedade muito boa nas distribuição das músicas que vai desde uma baladinha pra chorar no cantinho até uma animada para dançar no meio da rua. Only Angel, Kiwi e Carolina são espetaculares e lembram muito antigos clássicos do rock. Elas possuem um ar saudoso dos anos 50 e 60 em que muitos jovens se rebelavam nos bailinhos. Two Ghosts e Sweet Creature são as mais românticas, logo são as baladinhas prazerosas para ficar dedicando para alguém. Mas as minhas favoritas para fechar os olhos e sentir são Ever Since New York e From The Dining Table. São aquelas para se ouvir em um dia de chuva, deitada na cama e relembras aquelas sensações que nos dão frio na barriga. Mas sem cair no choro. São coisas boas para recordar.

Woman também se destaca no álbum mas pela sua pegada mais sensual e retrô. Muita besteira já pensei ouvindo esta música. E por fim, Meet Me In The Hallway e Sign Of The Times abrem o disco delicadamente introduzindo toda esta viagem prazerosa. Sing Of The Times nos deu uma prévia do que esperar desta nova fase da carreira do cantor, e olha, vou confessar que nunca fiquei tão feliz com este sinal que ele lançou para nós. Harry Styles nos deu um álbum conciso, maduro e melhor de tudo, direto ao ponto. Sem enrolações e tampouco nos entupiu com milhões de músicas esquecíveis. Além de conquistar uma identidade musical própria, ele fugiu de um pop óbvio e nos presenteou com muita música boa. É Harry, você me ganhou.

Minhas mães no cinema: Regina Casé em Que Horas Ela Volta?

Eu prometi que neste pequeno especial em alusão ao Dia das Mães, eu não iria repetir filme que já tivesse escrito no blog. Tentei, mas não consegui pensar em nenhuma outra personagem com um grande significado como Regina Casé como Val em Que Horas Ela Volta? (2015). Sabe por que? Porque Val é minha mãe e também é a mãe de milhões de brasileiros. Uma mulher que saiu de uma cidade pequena lá do Nordeste para tentar um emprego melhor na grande metrópole no Sudeste do Brasil. Tudo isso para sustentar a filha Jéssica (Camila Márdila) que não seguiu viagem com a mãe para São Paulo, ficando sob os cuidados de parentes, enquanto Val perdia o crescimento da jovem. E como se o círculo não tivesse fim, o mesmo acontece na casa onde Val trabalha. Dona Bárbara (Karine Teles) também é uma mãe ausente, deixando o filho Fabinho (Michel Joelsas) para a empregada cuidar. Então todo amor e carinho que Val guardava foi entregue para Fabinho, que tem a empregada como uma segunda mãe, literalmente.

Esta é uma realidade que acontece desde que o mundo é mundo e acontece todos os dias. Principalmente no Brasil. A mãe que trabalha fora o dia inteiro para dar uma uma vida melhor aos filhos, na intenção de que eles tenham tudo aquilo que não tiveram quando eram mais nova. É um sentimento universal de mãe. Só que em Que Horas Ela Volta? também mexe com um segundo ponto que é a questão social. Enquanto que Val é de uma época em que alguém de baixa renda não tinha voz e aceitava tudo de cabeça baixa do chefe, Jéssica é da geração que pede igualdade e respeito independente da situação financeira de qualquer um. Jéssica é também herdeira de uma época em que as oportunidades para os mais pobres se abriram, especialmente nos estudos, o que a faz tão competente quanto alguém que teve uma educação escolar superior a sua. Há uma divergência em culturas tão diferentes? Tem e muita. Daquelas que você se sente constrangida pela amiga. Mas o bom é que Val, percebendo que o sangue fala mais alto, começa a se abrir e entender tudo que Jéssica tem a dizer.

Por fim, Que Horas Ela Volta? tem uma imensa mensagem pois muito vi minha mãe, me vi e muitas outras figuras que conheci na vida sendo retratadas no filme de Anna Muylaert.  Não é à toa que eu, hoje formada em duas faculdades, só fui capaz disso tudo com o esforço que a “minha Val” teve para que eu pudesse realizar tanto os sonhos dela quanto os meus.

Minhas mães no cinema: Marieta Severo em Cazuza: O Tempo Não Para

Ela não é a protagonista do filme, mas Marieta Severo é um dos pilares que segurou o furacão de ter um filho, na ficção, como Cazuza. A atriz representou Lucinha Araújo, mãe do cantor morto em 1990 vítima de Aids, com delicadeza e força que só Marieta poderia dar em cena. É impossível assistir Cazuza: O Tempo Não Para (2004) e imaginar alguma outra atriz que se encaixasse tão bem no papel e na harmonia que ela passa ao lado de outros colegas. Principalmente com Daniel de Oliveira, que deu vida a Cazuza. Marieta é a própria fã número um do filho, daquelas que amanhece na fila para ficar na grade do show e aplaudir qualquer arte que Cazuza poderia apresentar. E não foram poucas. Do teatro para a música foi um salto. E lá estava Lucinha para até comprar briga com um vizinho que não aguentava mais a música alta do Barão Vermelho.

Cenas engraçadas e típicas de mãe não faltam no filme. Mostrando que a união dos dois era enorme, apesar da super proteção de Lucinha. Afinal, ela parecia sentir aquela vida intensa que Cazuza levava e precisava acompanhar o ritmo para não perder nenhuma lembrança. E mesmo com toda aquela vida louca, mil amores acontecendo, Lucinha esteve ao lado de Caju do início ao fim. Poderia não compreendê-lo totalmente, mas nada atrapalharia o relacionamento de mãe e filho. Ele sempre importava muito mais do que qualquer detalhe que poderia interferir no caminho dela. Marieta transborda amor e carinho quando está com Cazuza. E não importa quantas vezes eu assista a este filme, eu sempre vou rir quando ela diz que está tomando no cu e vou eternamente me arrepiar ao vê-la na porta do quarto cuidando de Cazuza. O Tempo Não Para nem parece um filme de verdade, parecendo até um registro documental da família Araújo. E o que dizer de Daniel de Oliveira interpretando Cazuza? Literalmente o reencarnado nos palcos, nos amantes e na farra com os amigos na praia. É um filme contagiante. Seja com Caju declamando poesia cantada ou simplesmente com Lucinha amando o filho como se fosse o último dia.